terça-feira, 9 de maio de 2023

Críticas - WHIPLASH (2014)

 Dirigido por: Damien Chazelle


Musicais… ame ou odeie! Esse estilo de filme é carregado de preconceitos. Mas é inegável, as grandes contribuições que alguns musicais deram ao cinema. Cantando na Chuva (1952), Amor, Sublime Amor (1961), Minha Bela Dama (1964)... Mais recentemente, o jovem diretor americano foi campeão em indicações ao Oscar, por um dos (já considerados) grandes musicais do século: La La Land (2016). Porém… perdão, fãs de Emma e Ryan… Whiplash é o melhor filme do Damien.

  Tudo bem que Whiplash não conta com falas cantadas, diálogos ritmizados, rimas repentinas… Não. Nesse filme, a estrela musical é a bateria. É um musical de bateria. Só por essa informação, já notamos a originalidade dessa película. Afinal, é um grande desafio para um diretor, fazer um musical de um instrumento tão subestimado. Mas acredite: depois que você assistir Whiplash, nunca mais ouvirá músicas da mesma maneira.

  Como vemos na direção incrível de Damien, as luzes estão na bateria e no baterista. E através de um aluno de música, Chazelle pôde tocar num ponto social extremamente importante. A busca pela perfeição (Como diz o subtítulo em português).

  O filme como todo é minimalista e direto ao ponto. Roteiro, direção, montagem… tudo foi feito de forma categórica. E que deu foco, através do trabalho de luz e sombra, de fotografia e de câmera lenta, ao que realmente importava. Primeira cena: bateria e Andrew (Miles Teller). Luz em cima dos dois. Andrew começa a tocar uma música difícil, que ele executa com perfeição. Um homem entra na sala: Terence Fletcher (J.K. Simmons). Foco nele também. Impressionado com a atuação de Andrew, ele o avisa de que está de olho nele, para promovê-lo na escola de música.

  Fazendo uma homenagem ao seu próprio curta-metragem que originou esse filme, a sala da turma “b” é bem iluminada, com tons de branco e azul ao redor (Damien usou as cores também para enfatizar o clima das cenas). O Professor Fletcher entra na sala, e convida Andrew para subir de turma. 

   A sala “a”, já é bem diferente da anterior. Bastante escuridão, tons pretos ao redor e pouquíssimo amarelo. Lá está Terence Fletcher, sorridente com a entrada do novo aluno, conversou com ele antes da primeira aula de maneira amigável. Tudo maravilhoso. Até que Andrew começa a tocar. A mesma música do início do filme, porém com um… TEMPO diferente. Primeira tentativa… pare! De novo… segunda tentativa… pare! De novo! terceira tentativa… opa… foco mais fechado em Fletcher e em sua mão. De novo! Agora o professor parece mais satisfeito, soltando um sorriso, até que… uma cadeira voa na direção de Andrew. O professor se aproxima dele, e com a fala acelerada soberba do J. K.,que já conhecíamos em Homem-Aranha (2002), Fletcher destrói com o psicológico de Andrew logo de cara. Gritando, esbofeteando-o, berrando: VOCÊ NÃO ESTÁ NO MEU TEMPO! 

  Depois disso, o personagem de Andrew passa por uma falência psicológica e social. Perdendo a paciência com sua família, que não valoriza sua carreira, terminou com a namorada. Toda sua vida, passou a ser tocar melhor a bateria para impressionar seu professor. Tocando Whiplash (a música) em casa debaixo de sangue, suor e gritos.

  E assim chegamos a sequência mais pujante do filme. Andrew deve batalhar com outros dois para ser o principal na próxima apresentação. Nesse momento, Terence mostra o pior do seu lado sargento. Chateado pela morte de um antigo aluno, e pela má atuação de seus bateristas, ele os obriga a tocar seguidamente, sem descanso, até que algum deles alcance o tempo do professor e  ganhe a música. Muitos gritos, muito sangue misturado com suor e muita dor. Exibida de forma monumental pelo Miles e os outros atores. Até que às 02h, Andrew ganha a música.

  Nosso personagem principal tem sua primeira conquista! Mas algo ainda parece errado. Ele ainda está tenso. Seu nervosismo, acaba desencadeando em uma sequência de erros, que acabou originando um desastre. Andrew não só perde a música, como é expulso. Desde a cadeira na cabeça de Andrew, até a expulsão, vimos um personagem caminhando para a insanidade. Em seus ensaios com sangue e suor, os gritos do professor… até que no ápice da loucura, ele ataca Fletcher.

  A próxima sequência, é meio que uma jornada do herói. Andrew pára com a música, mas continua cercado por ela. Até que… ele reencontra Fletcher meses depois. Só de pensar na finalização desse filme… eu tenho arrepios. Para mim, está entre as maiores da história!

  Whiplash é um dos meus filmes favoritos. O roteiro, vencedor do Óscar, é sensacional. Com nuances de suspense, drama, um belo toque “scorsesiano”, mostrando uma tragédia psicológica, e a finalização soberba! Miles Teller tendo sua grande atuação na carreira. Um domínio de expressões incrível, exacerbando verdadeiramente toda a dor física e psicológica que ele sentia. J. K. Simmons, vencedor do Óscar de Melhor Ator Coadjuvante, num personagem assustador. Claramente baseado no Sargento Hartman (R. Lee Ermey), do filme Nascido Para Matar (1987). As roupas escuras, falas aceleradas, a violência na gesticulação e tons de voz. E a bateria?! Uau! O som desse filme é incrível! Vencedor do Óscar, deu ênfase máxima a um dos personagens principais da película! Ufa… que bela história! Damien Chazelle e seu filme foram indicados ao Óscar de Melhor filme e Direção, perdendo para Birdman (2014), de Alejandro González Iñárritu. Com um final incrível, onde esses três personagens aí de cima, se encontram no paraíso.

  Damien Chazelle trata nesse filme um tema muito importante: a velocidade e alta carga de pressão da atual sociedade. Hoje, os resultados são esperados por cada vez menos tempo. Se você não for perfeito, não entra na faculdade. Se você não for perfeito, não é promovido ao emprego, ou sequer entra nele. Se você não for perfeito, não malhar, se alimentar bem, ter emprego, ganhar dinheiro… não consegue uma namorada. Não tem uma vida. De certa forma, Terence Fletcher existe em cada um de nós. Na mente de cada pessoa, existe um Sargento Hartman, berrando em nossos ouvidos, cuspindo em nossos rostos, jogando cadeiras em nossa cabeça até “ACERTARMOS O SEU TEMPO!”. Se não, somos expulsos… e não conseguimos alcançar nossos objetivos. Falei anteriormente de O Rei da Comédia. Os finais são bem parecidos, por deixar a mesma pergunta. Note tudo que Andrew passou no filme, sofrendo acidentes, perdendo a sanidade, derramando litros de suor e sangue… até alcançar o sorriso do professor. Você faria o mesmo? Está disposto a passar pelo mesmo que Andrew, para alcançar a perfeição?

sexta-feira, 28 de abril de 2023

Críticas - LADRÕES DE BICICLETA (1948)

 Dirigido por: Vittorio de Sica


Antes de assistir qualquer filme, ou acompanhar um movimento artístico, temos que entender o contexto histórico. Ladri di Biciclette é o principal símbolo do Neorrealismo Italiano. Movimento criado justamente no decorrer da Segunda Guerra Mundial, que fazia oposição a estética de cinema fascista carregada de moralismo e positivismo, que não tinha absolutamente nada a ver com a realidade vivida naquele momento pela população. Os principais filmes do movimento, são justamente no pós-guerra. Alguns retratam acontecimentos do período bélico, outros relatam as consequências de todo aquele massacre. Resumindo: Vittorio de Sica, Luchino Visconti, Roberto Rossellini e até mesmo Federico Fellini, queriam dizer a verdade. Queriam se aproximar do povo. E isso revolucionou o cinema.

  Ok! Esse movimento italiano não criou a verdade no cinema. Os diretores citados anteriormente, beberam da fonte de outro movimento: o Realismo Poético Francês. Que teve como um dos seus principais realizadores Jean Renoir. Mas, o movimento francês não chocou tanto quanto o italiano. Além disso, outros grandes movimentos se inspiraram nele: a Nouvelle Vague, o Cinema Novo Brasileiro e a Nova Hollywood. Considero que há um cinema antes e depois desses movimentos.

  Todos eles têm em comum a realidade política/social/criminosa/amorosa. Em Ladrões de Bicicleta, tocamos mais na social.

  Logo, somos apresentados a centenas de pessoas que estão em busca de um emprego. Todos os dias, eles falavam com o mesmo homem, que lhes atualizavam sobre a situação. Antonio Ricci (Lamberto Maggiorani) é o sortudo do dia. Ele teria que colar cartazes. Para facilitar sua locomoção, era necessário uma bicicleta (objeto o qual ele não tinha). Muita gente se identificaria com a sequência seguinte, quando ele volta para casa informando a sua esposa a situação, e ela a soluciona penhorando alguns lençóis. Conseguindo o dinheiro, ele compra a bicicleta, e tudo é as mil maravilhas.

  Seu filho, Bruno Ricci (Enzo Staiola) (outro elemento colocado nesses quatro movimentos, que não era explorado antes no cinema de produção em massa; as crianças) fica estonteante com a notícia. No outro dia, Antonio deixa seu filho no trabalho, e parte para o seu primeiro dia. Tudo estava indo muito bem, quando de repente, um ladrão roubou sua bicicleta. Ele e seu supervisor tentam correr atrás, mas não conseguem. Todo o resto do filme, se baseia na busca desenfreada de Antonio e seu filho, pela bicicleta.

  O roteiro é maravilhoso! Chocante, revolucionário e imersivo. Tanto que foi indicado ao Oscar de Melhor Roteiro Adaptado, da edição de 1950 (Perdeu para Quem é o Infiel?, de Vera Caspary). Mas o filme em si é tão maravilhoso quanto. Os prêmios falam por si só (Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, BAFTA de Melhor Filme, Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro, Bodil de Melhor Filme Não Americano…). Porque essa película não foi só revolucionária em seu roteiro. Vemos também técnicas de direção, fotografia e direção de arte, que foram únicas para a época, que levantaram ainda mais a trama.

  Notem! Antonio e Bruno estão em busca da bicicleta. Então, Vittorio de Sica enche os quadros de bicicletas. Em cada frame durante a busca, sempre vai haver uma bicicleta ou pneu à vista. Colocando inclusive uma dúvida na cabeça do espectador, que sabe o nome do filme. Logo, nos perguntamos: Quando eles vão roubar logo uma dessas bicicletas? Mas lembrem-se: Sica quer conversar com as grandes massas. E com certeza, ele não quer passar no seu personagem um ar desonesto. Ele continua em busca da sua bicicleta, comprada com seu dinheiro, na qual ele sabe até o número de série do chassi de cor. Mas a busca vai deixando Antonio cada vez mais revoltado e impaciente. Principalmente quando ele descobre a identidade do ladrão, e passa a cassá-lo. Então, o que Vittorio faz: tira as bicicletas da cena e coloca pessoas. Enche o quadro de pessoas (Principalmente na cena da igreja). Uma característica de direção, vista em muitos diretores famosos, principalmente em Martin Scorsese, é o intimismo. O diretor quer que você mergulhe na mente do protagonista. Ele quer que você saiba dos seus interesses, de seus medos, de seus amores… Colocar bicicletas e/ou pessoas no quadro, fez de nós um olho extra para Antonio. Nós queremos que ele ache a bicicleta primeiro, mas depois queremos que ele ache o ladrão e o quebre na porrada. E depois, voltamos para bicicleta. Após a caçada ao ladrão, os quadros se enchem de bicicletas de novo.

  Nesse filme, há uma tragédia moral. Inclusive, Antonio, que não é um homem religioso, recorre até a uma vidente para encontrar o seu veículo. Virou quase um amor platônico. Olhem a construção personagem/roteiro: Positivismo ao catastrofismo, esperança à tristeza, trabalhador ao revoltado.

  Ladrões de Bicicleta é, na minha opinião, um dos 10 filmes mais importantes da história. Beira a perfeição em várias camadas, além de ter inspirado inúmeros outros grandes roteiristas e diretores. 

  O cinema é e sempre será o lugar dos sonhos. Mas precisamos ouvir a verdade às vezes. É importante que hajam filmes esfregando a verdade em nossas caras, usando até elementos surrealistas e fantasiosos às vezes, como em O Homem Invisível (2020), Bastardos Inglórios (2009), A Árvore da Vida (2011), Matrix (1999), Requiém para um Sonho (2000), Mulholland Drive (2001)… por exemplo. Inclusive, Fellini, um dos grandes realizadores do período, foi um diretor das fantasias. Porém, seus filmes jamais se alienam. O cinema é um local de sonhos, mas também de aprendizado. 


terça-feira, 25 de abril de 2023

Críticas - REPULSA AO SEXO (1965)

Dirigido por: Roman Polanski 


  O que falar sobre os filmes intimistas? Falamos sobre Scorsese, na crítica de O Rei da Comédia, o diretor que melhor usa esse elemento em seus filmes. Intimismo, é pura e simplesmente ver o mundo com outros olhos. No caso dos filmes, ver o mundo pelos olhos de um personagem. Isso não é fácil. É preciso ter um conhecimento muito profundo e seguro. Além de exigir bastante das atuações. E claro… um talento puro e exponencial do diretor. Que tem a dura missão de ser os olhos de um ser humano. Mas… para Roman Polanski e Catherine Deneuve, isso não é problema. Ambos brilharam e fizeram essa obra de arte.

  O que há nos recônditos da mente de um ser humano? Nossa espécie é muito complexa! De cara, temos o fato de que 90% de quem somos, está escondido. Nós não mostramos. É nosso subconsciente. Está lá nos cantinhos. Os 10% são na verdade os reflexos de quem nós realmente somos. Então, imaginem o trabalho que foi para Roman Polanski, entrar na mente de uma doente mental, que tem problemas psicossexuais? Percorrer cada detalhe de seus pensamentos… dar luz aos 90% que ninguém vê, apenas Carol… apenas a garota que sofre com esses traumas terríveis… Devo dizer… deve ter sido muito trabalhoso. Mas o resultado… foi simplesmente perfeito.

  O início do filme, já nos dá o sinal claro de se tratar de uma história intimista. Os créditos iniciais passam, enquanto atrás temos o olho de Carol. Muitos filmes que utilizam o intimismo, usam esse enquadramento para guiar o espectador. Explicá-lo que tudo que ele verá, será através da visão de um olhar específico. O filme A Primeira Noite de um Homem, também se utiliza desse início. Vemos Carol (Catherine Deneuve). Seu rosto. Muito bonito, por sinal. Ela mora com a irmã, em um ambiente independente e feminino. Elas tem o próprio espaço, e Carol se sente a vontade assim. Ela trabalha no salão de beleza, como manicure e estava sendo cortejada por um rapaz bonito e educado. Apesar de seu jeito recluso e introspectivo, ela parecia a vontade com o rapaz.

  Porém, Polanski começa a explorar um cantinho de sua mente. Enquanto caminha na rua, voltando do trabalho, ela recebe cantadas de trabalhadores, que estavam reformando uma calçada, que estava rachada.

Tudo parecia ir bem na vida de Carol, apesar ainda dos problemas de reclusão. Porém, tudo começa a desmoronar, com a chegada do namorado da irmã. Carol, claro, não gosta. Sente que é uma mudança muito repentina na vida das duas, que ela achava equilibrada. E a gota d´água, é quando o namorado da irmã começa a dormir na casa. Carol não consegue dormir com os barulhos dos dois fazendo sexo e se remexe na cama.

  O namorado, percebendo o humor recluso de Carol, alerta sua namorada, indicando que ela precisa de um médico. Carol gosta de olhar freiras jogando bola pela janela. A irmã planeja assar um coelho que acabou deixando na geladeira, após mudanças de planos. Carol alertou sua irmã sobre uma rachadura na parede.

  Ok. Disse essas fatos desconexos, por uma razão. Esse filme, utiliza de muitos simbolismos. Lembre-se, somos a mente de Carol. Os 10%... e também os 90%. Tudo piora, no momento em que a irmã decide viajar com o namorado. Aí que o filme realmente começa. Porque agora, Carol está sozinha na casa. E juntando os fatores; o assédio que recebia na rua, o namorado tentando avançar, apesar de suas recusas, o trabalho de manicure, as rachaduras nas paredes, o coelho na geladeira, a camisa que o namorado da irmã deixou no chão e sua própria presença nos últimos dias... o que acontece? Carol perde de vez a razão. E esse é um momento muito importante do filme, porque agora entramos de vez no subconsciente dela.

  Sua recusa pelo pretendente aumenta ainda mais. Ele a beija, mas ela foge em seguida e limpa a boca. Porque ela o recusa tanto? Ele é tão educado. Não é como os pedreiros na rua, consertando as rachaduras… rachaduras. Aos poucos, todas as noites, Carol ouve os barulhos de sexo no outro quarto, e vê as paredes rachando. Ela tira o coelho da geladeira e o deixa em um banco. O que acontece com um coelho morto fora da geladeira? Ele fede… mas ela não parece se incomodar com isso. Carol começa a ter um comportamento cada vez mais infantil, ainda mais recluso e ainda mais perturbador. Como na cena em que ela corta a cabeça do coelho e joga na bolsa da amiga de trabalho. No trabalho, suas confusões mentais passaram a ser incontroláveis. Ela acaba cortando o dedo de uma mulher. 

  E tudo vai piorando. Ela mergulha cada vez mais numa profunda perturbação. As rachaduras aumentam e aumentam. Nas noites, ela começava a ver os trabalhadores na rua entrando em seu quarto e transando com ela a força. É uma das cenas mais assustadoras que eu já vi. Ela já está completamente desequilibrada… seu pretendente, preocupado, vai a casa dela e arromba a porta. Tentava conversar, acalmá-la, enquanto insistia também em tê-la como namorada. Porém… ela o mata. O colocando na banheira.

  E segue-se. As rachaduras aumentam cada vez mais. O pedreiro, todas as noites, invadia seu quarto. Com o coelho ao lado, ela passa a camisa que o namorado da irmã esqueceu, com o ferro desligado. E nesse momento, a direção de arte e direção brilham ainda mais. A própria casa, agora tinha um aspecto onírico. Lembrando muito os filmes do expressionismo alemão, inclusive. Enquadramentos em que Carol não parece caber no local, onde ela tem que se curvar, as paredes da sala alongadas, dando a impressão de terem um comprimento infinito... Polanski brilhou nesses enquadramentos. Perfeito! E a cena principal do filme, é quando ela atravessa o corredor que parece interminável e que se encurtava cada vez mais, e as rachaduras na parede se abrem de vez, onde mãos começam a sair das rachaduras, enquanto Carol tentava atravessar. As mãos a tocam, a molestam… outra cena perfeita e assustadora no ponto certo. 

  Ela acaba cometendo outro assassinato. Dessa vez, é o senhorio do apartamento. Que lhe fez a proposta de esquecer os aluguéis, se ela lhe satisfizesse. Ela o mata sem pudor. Antes, eles tiveram um papo e o senhorio olhava a foto da família no canto.

  Que atuação assustadora da grandíssima atriz Catherine Deneuve. Sem dúvidas, ela está no hall da fama do cinema mundial e o que ela fez nesse filme, foi arrebatador. Ela deu o corpo, a alma… tudo! Nesse personagem tão profundo, tão incrível e tão perturbador. Seus olhos… o que ela fez com os olhos nesse filme. Até porque, como vimos no início, eles são principal personagem do filme. Eles estão guiando a história. Então, ela precisava atuar com os olhos principalmente. E ela o fez. Brilhantemente.

  Polanski é genial. Três filmes que eu assisti dele, que ficaram na minha memória: Repulsa ao Sexo, O Inquilino e O Bebê de Rosemary. Os três tem em comum a ótima direção e roteiro. São histórias muito boas, com plot twists, muito bem guiadas e… com o final arrebatador.

  Carol entra em colapso final e desmaia, como se estivesse em coma eterno.  Nesse momento, chegam na casa sua irmã e o namorado. De cara ela sente o cheiro do coelho, o ferro fora do lugar, a bagunça na sala e… o corpo morto na banheira. Enquanto a comoção era feita, com muitos vizinhos aparecendo e acodindo Carol, o namorado da irmã a pega pelos braços e a leva para um outro quarto, soltando um sorriso malicioso. E aí vem o final maravilhoso. Agora que ela está com os olhos fechados, Polanski passa pela sala, mostrando cada detalhe daquela última semana. A bagunça, biscoitos no chão… até que ele chega a foto de família. E a câmera dá um close. E se aproxima… aproxima… Lá está Carol criança de pé e a certa distância um homem sentado. E o close aumenta até chegar ao rosto de Carol… até chegar a seus olhos… que paralisaram, aterrorizados olhando para o homem sentado… olhando para seu pai. Polanski… que história maravilhosa. Bem amarrada, bem contada… Simplesmente brilhante!


segunda-feira, 3 de abril de 2023

Críticas - O REI DA COMÉDIA (1982)

 Dirigido por: Martin Scorsese


Esse gênio do cinema mundial, sempre nos faz refletir em seus filmes sobre nossa própria existência. Scorsese toca e enfatiza em seus personagens principais o pior lado do ser humano. Nosso lado animalesco e selvagem. Em The King of Comedy, ele nos deixa uma incrível reflexão: Até que ponto você iria, para conhecer alguém famoso, que possa ajudá-lo a realizar um sonho? Você se misturaria entre fãs enlouquecidos? Invadiria o carro dele/a? Invadiria seu local de trabalho? Invadiria sua casa? Cometeria um crime? Iria preso? 


  Sei que várias pessoas, pararam na segunda pergunta. Mas, quantas vezes nós não nos fizemos essa pergunta? “Se meu sonho é tão importante, eu faria qualquer coisa para realizá-lo?” Eu lhe digo uma coisa, caro leitor: muita gente passa da segunda pergunta. Talvez não vá até a última, mas… muitas pessoas, nessa selva de pedra em que vivemos, ultrapassam todos os limites, para conseguir vencer. Realizar um sonho. Claro! Scorsese nos mostrou um ser humano sem nenhuma limitação moral, como é comum em seus filmes. Rupert Pupkin (Robert De Niro).


  Como disse, Scorsese sempre mostra o pior lado do ser humano. E suas histórias em geral são trágicas. Seja moralmente, ou fisicamente. Nesse caso, moralmente. As perguntas do primeiro parágrafo, foram respondidas por Rupert. Mas desde o início, estava muito claro que o protagonista estava convicto do que queria. Ele queria um espaço no programa de Jerry Langford (Jerry Lewis), no The Tonight Show. Todo comediante americano, sonhava com 5 minutos nesse programa, que existe de verdade. Nas primeiras cenas, Rupert está entre vários fãs enlouquecidos, que queriam um autógrafo, ou até o mesmo que Rupert. Quando Jerry foi para o carro, havia uma fã dentro, Masha (Sandra Bernhard), que também é outra fã quase do nível de Rupert. Quase.


  O uso da câmera lenta, no momento em que Jerry aparece na multidão, é sensacional. Scorsese usa muito o intimismo em seus filmes. Ele permite que nós olhemos o mundo, através da visão do protagonista. Enquanto todos estavam extasiados com a presença do famoso apresentador, Rupert o viu… em câmera lenta. O que denota frieza, calcularidade. Como disse: Rupert sabia exatamente o que estava fazendo.


  Martin Scorsese é um diretor que também não se preocupa em esconder informações. Suas histórias tem linearidade, por serem caminhadas trágicas. Martin enfatiza minuto a minuto, que o protagonista é um ser imoral. E que está caindo em desgraça. Nas primeiras cenas, que é justamente o momento de base do filme, Scorsese já nos diz que Rupert é doido. Tem alucinações, fala sozinho. Ok! Quem nunca se imaginou recebendo um Oscar? Quem nunca falou consigo mesmo no espelho, treinando para uma importante reunião? Sim! Todos nós fazemos isso! Porque nós somos seres humanos. Nós sonhamos também. Mas o diretor americano deixa claro nas cenas em que Rupert ensaiava para quando estivesse no programa de Jerry, que o protagonista está além do normal. Era um foco, uma atenção, uma determinação, que chegou à loucura. E para não termos dúvidas, Martin nos coloca dentro das alucinações de Rupert. Como falei: Scorsese não se preocupa em dar informações sobre seu protagonista.


  E aí, à medida que as perguntas do primeiro parágrafo vão sendo respondidas, há sinais muito interessantes no figurino e na direção de arte. A cor vermelha começa a aparecer. No filme, o aumento da cor vermelha significa perda de moral. Antes víamos azul, amarelo, verde… mas o vermelho começava a ficar presente. Pela primeira vez, quando ele foi expulso do estúdio do programa. E esse vermelho vai aumentando… aumentando. Até que vemos um quadro vermelho, com uma espécie de poça no meio. Sangue derramado. E Rupert, mesmo nessa caminhada, aumentando o nível de sua imoralidade, selvageria, ele permanece calmo, frio… assim como vimos lá na primeira vez em que ele viu Jerry. Rupert continuou vendo tudo em câmera lenta. Mesmo ele passando cada vez mais dos limites. E no final, tudo é vermelho. Sua roupa, seu espaço… ele chegou a glória, e ultrapassou o último limite.


  Scorsese, principalmente nessa época, é um diretor fortemente inspirado na Nouvelle Vague. Vimos isso nesse filme e em Taxi Driver (1976). A filmagem na rua, com pessoas passando, trânsito, barulho, diálogos mais abertos e improvisados. A escola francesa marcou sua época por utilizar o ar livre, por ser mais barato. Não havia a necessidade de locar um estúdio, E assim se desgarrar do produtor, que era figura que os diretores da Nouvelle Vague mais criticavam. O diretor americano bebeu da fonte de Truffaut e Godard, e criou obras primas da Nova Hollywood. Taxi Driver foi o principal, mas O Rei da Comédia não fica muito para trás.


  Que relação gostosa essa de Robert De Niro e Scorsese. Foram inúmeras parcerias no século XX, inclusive em Taxi Driver. De Niro é o ator que melhor lê e entende o que Scorsese quer dizer. De Niro foi perfeito em todos os filmes do diretor. E sinceramente, em O Rei da Comédia, ele fez um personagem muito original. Nunca vi nada parecido. A frieza, a falta de limites, a loucura… tudo foi expressado de maneira impecável. Seus sorrisos, gargalhadas, caras e bocas… ele carregou o filme muito bem. E apesar do personagem ser uma pessoa horrível, louca… nós ficamos com ele. Assistimos ele, rimos dele e até torcemos em alguns momentos. Isso é uma grande atuação. Isso é um grande personagem dirigido. Esse é Robert De Niro + Martin Scorsese. 


  E a cena final que nos deixou essa pergunta com a presença do vermelho… E aí?! Até que ponto você quer realizar seu sonho? Você está realmente convicto, de que fará qualquer coisa? Mesmo se invadir carros, estúdios, casas não resolverem… e aí? O que você faria depois? Está disposto a aceitar o vermelho?


quarta-feira, 22 de março de 2023

Críticas - A MOSCA (1986)

Dirigido por: David Cronenberg

 

    Eis aqui mais um filme, de um diretor autoral. O canadense está entre os cineastas mais originais da história. Grandes realizadores transitaram no gênero terror e contribuíram muito bem. Stanley Kubrick (O Iluminado), Steven Spielberg (Tubarão), Ridley Scott (Alien - O Oitavo Passageiro). Mas poucos foram tão pungentes quanto David.


    Percebe-se sua forte influência no expressionismo alemão, principalmente em The Fly, que deu o início ao gênero terror no cinema. Nota-se muito da influência de Fausto (1926), dirigido por F. W. Murnau. E para a proposta de terror que David adota, essa fonte histórica do cinema é fundamental para ele beber. Sim! Há muito  do expressionismo alemão em seus filmes. Mas, David conseguiu criar seu próprio subgênero: O Body Horror.


    Tradução: Horror Corporal. O termo já se explica. O canadense é um gênio, em causar nojo, medo, angústia com o corpo. Claro! Com uma grande ajuda da maquiagem. O diretor explora muito bem essa característica em seus filmes, já deixando até uma pupila! Julia Ducournau, que explorou muito bem esse sub-gênero com Titane (2021).


    Em A Mosca, juntando o Body Horror, com os elementos do Expressionismo Alemão, criou-se uma agonizante história de terror e suspense. São muitos filmes de qualidade desse diretor, onde ele juntou esses dois “elementos” (Videodrome, Crash, Crimes do Futuro). Mas A Mosca, talvez seja sua obra mais famosa no mainstream. O público do cinema estava bem aberto a novas ideias nos anos 80. Filmes de comédia, ação e terror enchiam as salas.


    Citei Fausto anteriormente. Em The Fly, também somos apresentados a um cientista excêntrico e genial. Na cena inicial, sem arrodeios, somos logo apresentados ao cientista Seth Brundle (Jeff Goldblum) e à jornalista Veronica Quaife (Geena Davis). Ele tenta convencê-la de que, entre tantos cientistas naquela sala, ele era o que tinha a ideia mais revolucionária. Mas a jornalista logo perde o interesse, quando ele hesita em contar sua ideia. Porém, ele vai atrás dela e a convence a ir em seu laboratório. Percebemos que Seth está atraído por Veronica.


    Ao chegar no laboratório, notamos de cara que as coisas ruins acontecerão ali. A fachada escura e suja, nos dá esse sinal. Ao entrarem no lugar, levemente mais limpo, Seth toca piano. Como disse, ele está atraído por Veronica e não preocupado em lhe explicar sobre a experiência. Porém, a jornalista com seu tino, o induz a falar sobre o Telepod. Nada mais, nada menos que uma máquina de teletransporte. Certa da loucura do cientista, Veronica não acredita. Até que Seth demonstra o experimento. A meia-calça de Veronica é teletransportada de uma cabine para outra, diante de seus olhos. A jornalista, antes ressabiada, agora convencida da capacidade de Seth, liga seu gravador. Só que, antes que Seth falasse muito, ela precisava trocar a fita. O cientista vendo, logo se irrita, pensando que o interesse de Veronica era apenas pessoal. Eles se desentendem e ela vai embora. 


    Veronica, no dia seguinte, apresenta a gravação a seu chefe (e ex-namorado),  que não se convence da veracidade da experiência. E para sua surpresa, Seth a procura no escritório. Comendo um hamburger numa lanchonete, Seth explica mais educadamente a Veronica, o porquê de não permitir que sua ideia seja contada ao mundo naquele momento. Ele faz uma proposta: A jornalista deve acompanhar o andamento da evolução da invenção de Seth: Tentar teletransportar seres vivos. Pois, até agora, a máquina só conseguiu teletransportar objetos inanimados.


    Acompanhando a experiência, os dois acabam se apaixonando e tendo um caso. O que ajudou, inclusive, Seth a entender sobre “carne” e ensinar isso à máquina. Ele finalmente consegue teletransportar um babuíno, para a alegria de ambos e combinam de viajar, enquanto o babuíno passa por exames, para definir a segurança da máquina. Vamos dar uma pausa.


    Até agora, percebemos a minúcia no trabalho dos dois. Mesmo sabendo o nome do filme e que é um terror, nos perguntamos o tempo inteiro: como tudo pode dar errado, se tudo está dando certo? Ambos eram cuidadosos nos experimentos. Em que situação, Seth decidiria do nada, entrar em uma das cabines para se teletransportar e, acidentalmente, uma mosca acabaria entrando? Lembram que Seth estava começando a entender sobre “carne”? Há uma metáfora aqui. Fala-se da carne no sentido químico e no sentido psicológico. Seth estava aprendendo sobre como se relacionar com uma mulher. E algo que ele não havia conhecido, o ciúmes, vem à tona e desencadeia a pergunta feita aí em cima. Ele entra na cabine para se teletransportar, e uma mosca entra com ele.


    Já a noite, com a presença de Veronica, para surpresa do espectador, Seth saiu normalmente da outra cabine. Aparentemente, ileso. Só que, as mudanças começam a aparecer. Primeiro nas características de força física de Seth e depois… bom, estamos falando de David Cronenberg! A cada cena, vemos Seth se transformar numa mosca. E essa mudança gradual foi perfeita para a proposta do diretor. Imaginem como seria comum, se o cientista já saísse como mosca da cabine e passasse a se comportar como o inseto. Não era isso que David queria (e nem o escritor do livro que deu origem a adaptação do canadense, The Fly, de George Langelaan). David nos mostra a mudança gradativamente. Cena a cena, algo agoniante e nojento acontece. Como uma orelha caindo, ou a face de Seth espinhada, ou o cientista se alimentando, regurgitando o ácido no alimento para umedecê-lo, como faz uma mosca. Temos ali Homem, Homem-mosca e a Mosca. E só Cronenberg poderia nos mostrar isso, da maneira mais horripilante possível. É o gênio do Body Horror!


    Temos que aplaudir de pé, o trabalho incrível da maquiagem e penteados, óbvio! Merecidamente vencedores do Oscar! Sem eles, David não conseguiria atingir a sua proposta de nos causar náuseas.


    Guillermo del Toro, é outro diretor que bebe dessa mesma fonte de Cronenberg. Usando elementos do terror e do Body Horror. Mas, Del Toro está mais para a linha das feras. Ele usa a computação gráfica para criá-las. Por isso, afirmo com toda a certeza, que Cronenberg é o dono desse gênero. Lembramos do buraco na barriga em Videodrome (1983), as cicatrizes em Crash - Estranhos Prazeres (1996), os cortes e as costuras em Crimes do Futuro (2022)… Assistam! Mas com um remédio de enjoo do lado.


segunda-feira, 20 de março de 2023

As/ Os Notáveis: O mestre das odisseias

 Stanley Kubrick

País de origem: Estados Unidos
1928  - 1999
Prêmios e Festivais: OSCAR / GLOBO DE OURO / FESTIVAL DE VENEZA
Período(s): Era de Ouro de Hollywood / Nova Hollywood

    TOP 5

 2001: Uma Odisseia no Espaço (1968)

 Laranja Mecânica (1971)

 Barry Lyndon (1975)

 Dr. Fantástico (1964)

 Spartacus (1960)


    A Odisseia do homem e seus efeitos

  Poucos diretores na história do cinema, transitaram tão bem por variados gêneros, como o diretor norte-americano. O gênero guerra foi o mais explorado por ele: Glória Feita de Sangue (1957), Spartacus (1960), Dr. Fantástico (1964) e Nascido Para Matar (1987). Mas o que mais chama atenção em Kubrick, era como ele orquestrava de forma tão magnifica suas odisseias.

    A principal de suas odisseias, é sem dúvida 2001: Uma Odisseia no Espaço. O filme é tão bem feito e tão espetacular, que se fosse feito nos dias de hoje, também venceria prêmios. Um filme que trouxe vários itens para a cultura pop, como a I.A. Hal,  e que literalmente previu o futuro, como as ligações de vídeo, por exemplo. O roteiro é genial! Fazendo dupla com Arthur C. Clarke, Kubrick fez uma obra de arte a frente de seu tempo, ao ponto de ser pouco entendida pela crítica e público. O final não é um dos mais fáceis de entender. O filme como um todo, usa de uma linguagem futurista, que com certeza dificultou o sucesso do filme em sua época, mas que levou um resultado magnífico para as telas. Dos macacos, à super-nova... é a odisseia da relação espaço tempo/ser humano. O filme é colocado em várias listas, como um dos 5 maiores da história. Kubrick explorou outras odisseias além do espaço. Como disse, transitando em múltiplos gêneros, dissecou cada detalhe de cada faceta do ser humano. Principalmente pós 2001. 

    Anteriormente, ele nos entregou duas grandes histórias do gênero guerra, que era seu carro-chefe. Spartacus talvez tenha sido seu segundo filme mais grandioso. É um épico em sua essência, trazendo a clássica jornada do herói, repetida anos depois por Ridley Scott, em Gladiador (2000). Em 62, temos um dos filmes mais polêmicos do diretor. Lolita, adaptado do livro do autor Vladimir Nobokov, é uma história essencialmente polêmica. Porém, ver uma menina de 14 anos, sendo vista com desejo sexual por um homem mais velho, arrepia. Isso não deixa a adaptação menos espetacular. É um dos grandes filmes do autor, meio recanteado por conta das críticas. 2 anos depois, ele faz seu primeiro filme com toques mais surreais. Dr. Fantástico, traz uma situação distópica, no auge do Macarthismo. Sem dúvidas, foi um dos filmes que mais deixou o público pensativo nesse período importante da história da humanidade. O medo constante de um louco apertar um botão, e trazer ao mundo um apocalipse nuclear sem precedentes. Kubrick usou sua licença poética, colocando um homem cavalgando na bomba. Espetáculo. Fora que a cena final, do alemão se levantando da cadeira de rodas e fazendo uma saudação nazista, nos traz calafrios.

    Indo mais atrás, Kubrick tinha nos entregado um belo noir com O Grande Golpe (1956), chegando ao seu auge com o gênero, após seus dois primeiros longas da carreira Medo e Desejo (1953) e A Morte Passou Por Perto (1955).

    Mas foi com as odisseias, que de fato Kubrick virou esse monumento da história do cinema. Depois do espetacular 2001,  filme que revolucionou a sétima arte, não só com o roteiro e direção sem precedentes, mas principalmente com a direção de arte e efeitos visuais (supervisionado por Kubrick), ele nos traz a odisseia da violência, adaptando o espetacular livro, do autor Anthony Burgess, para um espetacular filme. Laranja Mecânica é um dos filmes mais importantes de sua carreira, porque de fato é o primeiro do diretor na Nova Hollywood, onde os diretores receberam mais liberdades criativas. É um dos filmes mais polêmicos da história, sendo proibido em vários países. Pois a tarefa de Kubrick, era dissecar a relação ser humano/violência. Então... temos um filme violento. Parecido com 2001 em alguns fatores. Temos uma direção de arte reproduzindo um futuro distópico, onde a violência e o sexo sem limites estava em voga na sociedade. É um filme espetacular, que gera discussão até hoje e orquestrado de maneira fina por esse gênio. As odisseias de 68 e 71 envelheceram e continuam envelhecendo muito bem. Em todos os sentidos. 

    Em 75, temos a odisseia da aristocracia britânica. E especificamente, como um homem "comum" poderia se instalar nela. Barry Lyndon não é um filme muito adorado pelos fãs do diretor. Mas é inegável sua qualidade técnica, figurinos e atuações. É um grande filme. Em 87, Kubrick decidiu fazer um resumão do gênero guerra, trazendo sua odisseia, como palco a guerra do Vietnã. Nascido Para Matar, é um dos filmes mais trágicos e desesperançosos de sua filmografia. Foi onde ele usou mais uma de suas grandes marcas: o humor ácido. É um filme sádico e assustador.

    Porém, o seu filme mais famoso e mais visto dentre todos, é sem dúvidas sua odisseia da loucura. O Iluminado (1980) é o primeiro filme do gênero terror do autor, e é um dos melhores da história do gênero. Kubrick captou do livro famoso de Stephen King, a loucura trágica do personagem Jack, espetacularmente feito pelo arrebatador Jack Nicholson, Ele roubou o filme para ele, como já é de costume. E trouxe exatamente o que Kubrick queria: um personagem mergulhando na insanidade.

    E sua carreira chega ao fim, com meu segundo filme preferido do autor. O filme onde ele pisou com toda a força no gênero surreal. A odisseia do sexo, De Olhos Bem Fechados (1999). Para mim, é o filme mais lindo do autor. Com Tom Cruise e Nicole Kidman entregando tudo, Kubrick analisou todos os meandros da relação sexo/ser humano. Explorando mais a questão da infidelidade masculina e seus efeitos. 

    No mesmo ano, Kubrick faleceu por uma parada cardíaca. Deixando de dirigir inclusive, um dos grandes filmes do início do século XXI, A.I. - Inteligência Artificial (2001), que acabou sendo dirigido, brilhantemente, por Steven Spielberg. Outro projeto que o autor tinha em mente, era o filme Napoleão, onde ele contaria a história do déspota desde sua infância.

    Acompanhar a filmografia de Kubrick, é dissecar boa parte da história do cinema. Um diretor fantástico, corajoso e desinibido. Extramente calculista em cada detalhe de sua direção, teve como marca principal os pontos futuros, como na clássica cena das gêmeas no fim do corredor.

 Filmografia

  • Medo e Desejo (1953)

  • A Morte Passou Por Perto (1955)
FESTIVAL DE LOCARNO (MELHOR DIRETOR)

  • O Grande Golpe (1956)
BAFTA (INDICADO A MELHOR FILME)

  • Glória Feita de Sangue (1957)
BAFTA (INDICADO A MELHOR FILME) / WRITERS GUILD OF AMERICA (INDICADO A MELHOR ROTEIRO DRAMÁTICO / ITALIAN NATIONAL SYNDICATE OF FILM JOURNALISTS (MELHOR DIRETOR ESTRANGEIRO)

  • Spartacus (1960)
OSCAR (MELHOR ATOR COADJUVANTE, MELHOR DIREÇÃO DE ARTE, MELHOR FOTOGRAFIA, MELHOR FIGURINO # INDICADO À MELHOR TRILHA SONORA E MELHOR EDIÇÃO)

  • Lolita (1962)
OSCAR (MELHOR ROTEIRO ADAPTADO) / FESTIVAL DE VENEZA

  • Dr. Fantástico (1964)
OSCAR (INDICADO À MELHOR FILME, MELHOR ATOR, MELHOR DIREÇÃO, MELHOR ROTEIRO ADAPTADO) / BAFTA (MELHOR FILME BRITÂNICO/GERAL - UN - MELHOR DIREÇÃO DE ARTE BRITÂNICO # INDICADO À MELHOR ROTEIRO BRITÂNICO,  MELHOR ATOR GERAL/BRITÂNICO) / DIRECTORS GUILD OF AMERICA (INDICADO À MELHOR DIREÇÃO) / WRITERS GUILD OF AMERICA (MELHOR ROTEIRO DE COMÉDIA) / NEW YOR FILM CRITICS CIRCLE AWARDS (MELHOR DIREÇÃO # INDICADO À MELHOR FILME, ROTEIRO) / HUGO AWARDS (MELHOR APRESENTAÇÃO DRAMÁTICA)

  • 2001: Uma Odisseia no Espaço (1968)
OSCAR (MELHOR EFEITOS VISUAIS # INDICADO À MELHOR DIREÇÃO, MELHOR ROTEIRO ADAPTADO, MELHOR DIREÇÃO DE ARTE) / NATIONAL BOARD OF REVIEW (TOP 10) / BAFTA (MELHOR DIREÇÃO DE ARTE, MELHOR FOTOGRAFIA, MELHOR SOM # INDICADO À MELHOR FILME) / DIRECTORS GUILD OF AMERICA (INDICADO A MELHOR DIREÇÃO) / NATIONAL SOCIETY OF FILMS CRITICS AWARDS (INDICADO A MELHOR FOTOGRAFIA) / DAVID DI DONATELLO (MELHOR PRODUÇÃO) / HUGO AWARDS (MELHOR APRESENTAÇÃO DRAMÁTICA)

  • Laranja Mecânica (1971)
OSCAR (INDICADO À MELHOR FILME, MELHOR ROTEIRO ADAPTADO, MELHOR DIREÇÃO, MELHOR EDIÇÃO) / FESTIVAL DE VENEZA

  • Barry Lyndon (1975)
OSCAR (MELHOR FOTOGRAFIA, MELHOR FIGURINO, MELHOR TRILHA SONORA, MELHOR DIREÇÃO DE ARTE # INDICADO À MELHOR ROTEIRO ADAPTADO, MELHOR FILME) / NATIONAL BOARD OF REVIEW / GILDE FILMPREIS (MELHOR FILME INTERNACIONAL)

  • O Iluminado (1980)
FESTIVAL INTERNACIONAL DE SAN SEBÁSTIAN

  • Nascido Para Matar (1987)
OSCAR (INDICADO À MELHOR ROTEIRO ADAPTADO) / NATIONAL BOARD OF REVIEW / GLOBO DE OURO (INDICADO À MELHOR ATOR COADJUVANTE)

  • De Olhos Bem Fechados (1999)
GLOBO DE OURO (INDICADO À MELHOR TRILHA SONORA) / FESTIVAL DE VENEZA

quinta-feira, 9 de março de 2023

Críticas - PARA MINHA AMADA MORTA (2015)

Dirigido por Aly Muritiba

 

  Quando pensamos em suspense, automaticamente lembramos de Alfred Hitchcock. Ele não criou o gênero (Pode-se dizer que os “pais” são os diretores do Expressionismo Alemão, e a mãe Lois Weber), mas com certeza, o diretor britânico foi o que melhor o desenvolveu. E, obviamente, nasceram pupilos à medida que os anos se passaram, que ajudaram o Suspense a se desenvolver ainda mais. Assisti muitos deles. Mas poucos me tocaram tanto no que diz respeito a esse gênero, quanto o filme do diretor baiano.

   Algo supra essencial nos filmes de suspense, para o diretor, é o controle das informações. O quanto devemos saber, a que momento devemos saber e como devemos lidar com isso. O melhor exemplo disso na filmografia de Hitchcock, é em Um Corpo Que Cai (1958), considerado o melhor filme do diretor. Nele, o controle das informações e as ações dos personagens são uma aula de Suspense. Aly Muritiba conseguiu não só repetir isso, mas aumentar a carga de suspense ao máximo com este filme.

  Somos apresentados a Fernando (Fernando Alves Pinto) e seu filho. A criança, o encontra dormindo sobre roupas de mulher. A partir desse ponto, a rotina de Fernando é exposta. Ele é viúvo. E em seu dia-a-dia, tudo é feito em prol de sua ex-esposa. As noites organizando suas roupas, o seu emprego fotografando mortos (foi assim que ele encontrou sua ex-mulher falecida), ele buscando objetos no antigo escritório de advocacia dela. O viúvo cultua a memória dela. Mesmo morta, ela é o centro da vida de Fernando. Mas ele encontra fitas VHS as quais Fernando ainda não tinha visto.


  Ao assistir, boom! Primeira informação! Um detalhe da vida dela é descoberto. A ex-esposa de Fernando, mantinha uma relação extraconjugal. Claramente transtornado, o viúvo decide ir atrás do amante dela. E a partir desse momento, eu me impressionei com a atuação do Fernando (Ator). Ele começa a agir com frieza, calma e tranquilidade. Contrastando com a raiva que ele estava sentindo por dentro. Fernando descobre o local onde o amante mora e que ele é casado e tem dois filhos. O viúvo os conhece na igreja da cidade. Logo depois, se apresenta para ele. E esse primeiro contato já conta com o primeiro momento de alta carga de suspense. Porém, Fernando não faz nada das coisas que borbulham em nossa mente. Pelo contrário. Ele aluga uma das casas do amante. 


  Ok! Amigos próximos, inimigos mais próximos ainda (O Poderoso Chefão). Aly mexe com nossa mente a partir desse momento de maneira genial. “O que Fernando vai fazer?”. Primeiro, a aproximação com a filha do amante. Fernando meio que a seduz, lhe oferece cigarros. “Então é isso! Ele vai atrair a menina!” Eis o momento: Ela entra na casa de Fernando, levando comida. Ele vai até a cozinha, enquanto a menina senta na cama. Zero diálogos! Para mexer ainda mais com a gente. Com seu jeito frio e lento, Fernando desliga a tv, senta ao lado dela… e… a manda sair. Essa é só uma das cenas de suspense incríveis desse filme. Mas não é a melhor.


  O amante está fazendo um serviço no quintal. Fernando vai até ele, no meio da noite. Eles conversam sobre relações conjugais, enquanto o viúvo trabalhava com uma pá. Uma… pá. As insinuações de Fernando no diálogo, juntas as informações que nós temos, transformou a cena num primor técnico! Note: A câmera não está parada. Há movimento, justamente para indicar a tensão da conversa. E a câmera segue os movimentos de Fernando que cavava, cavava. No ápice do diálogo, quando falavam de relações EXTRACONJUGAIS, Fernando pára de cavar, levanta a pá… e a põe atrás da cabeça. E o diálogo continua… e a tensão aumenta. “É agora! Ele vai matá-lo! Agora!”. O amante começa a descrever a esposa morta de Fernando… e aí… ele volta a cavar. Agora só com Fernando sendo filmado.  Nos dias seguintes, as tensões continuam, quando ele insinua mexer com a esposa do amante. Mais suspense!


   Aly Muritiba merece todas as felicitações por essa bela obra. Não fica em nada atrás dos clássicos hitchcockianos. Muritiba fez nossos corações baterem, pupilas dilatarem, ouvidos aguçarem, como todo filme de suspense deve fazer.


  Fernando Alves Pinto é conhecido por fazer ótimos filmes nacionais. Ele já havia atuado muito bem em 2 Coelhos, um ótimo filme de ação. Mas essa atuação neste filme foi sublime. Perceberam? Quando ele não tinha a informação de que sua falecida esposa mantinha relações fora do casamento, ele vivia para ela. Se apegava às suas roupas, suas fitas, seu cheiro… E, de certa forma, isso continuou após ele assistir aquela fita. Fernando se apegou a única coisa viva que havia sobrado de sua ex-mulher. Seu ex-amante e família. Ele continuava vivendo para sua amada morta.


Críticas - Anatomia de uma Queda (2023)

  Dirigido por Justine Triet Existe um subgênero no cinema, que já foi bastante explorado e nos entregou filmes marcantes. Questão de Honra ...